Nadando em mar aberto: Uma lição sobre som e sobrevivência
Nadar em mar aberto é a forma mais próxima de experienciar a vida marinha. Não no contexto de sobrevivência, afinal somos seres terrestres, mas sensorial.
E foi assim que me dei conta, em um dos meus nados no mar...
Estávamos eu e Felipe, meu companheiro, na Praia Dura em Ubatuba. Eu a nado e ele me acompanhando no caiaque. O nado era fluido, contínuo, calmo e silencioso. Até que ouvi, com a cabeça submersa na superfície do mar, um som estridente, perturbador. Claramente não era um som natural do ambiente marinho. Aquele som aumentava e, repentinamente, parei de nadar, levantei a cabeça em direção ao Felipe e perguntei: “você vê algum barco ou jet-ski vindo em nossa direção? Ele pode não me ver nadando, fique de olho.”
Havia sim, porém distante. DISTANTE? Parecia estar ao meu lado.
Na água o som viaja 4,5 vezes mais rápido do que no ar. Por esse motivo, um ruído se propaga a longa distância. O que me fez perder a noção de onde estaria o barco. Perto ou longe?
Um barco!
Foi o que tirou meu rumo enquanto nadava. Agora imagine milhares deles, navegando diariamente, por todo o oceano, seja pelo turismo ou para transportar mercadorias. Sem falar na exploração de petróleo, instalação de turbinas eólicas offshore e sonares militares.
Sabendo que muitos animais marinhos dependem do som para comunicação, navegação, caça, pude perceber o quanto a poluição sonora, causada por nós humanos, impacta. Desorientando principalmente aqueles que dependem da ecolocalização, ou seja, a localização através do som.
Foi então que despertei para uma causa até então pouco falada e não percebida pela maioria de nós. No mar o silêncio não é ausência de som, afinal existem os sons naturais, mas sim a clareza para a orientação da vida que lá pertence.
🎙️VOZES QUE INSPIRAM
“Não cessaremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar onde começamos
E conhecer o lugar pela primeira vez...
Não conhecido, porque não procurado
Mas ouvido, meio ouvido, na quietude
Entre duas ondas do mar.”
📻 SINTONIZE NO OCEANO

Gravação subaquática na Baía de Sarasota, Flórida, de um jet-ski com motor de 4 tempos viajando a 64 km/h (40 mph), aproximando-se e afastando-se de um hidrofone (gravador aquático).
Sinfonia ou ruído? O que forma a paisagem sonora dos oceanos
O som nos oceanos é informação pura. Funciona como um mapa, uma bússola de sobrevivência aos seres que vivem lá.
Para entendermos a importância da conservação acústica, precisamos primeiro distinguir esses sons. A paisagem sonora marinha se divide em duas categorias: sons naturais e ruídos antropogênicos (ou seja, provocados pelas atividades humanas).
Antes de nós humanos ligarmos o primeiro motor, o oceano já era um lugar de sons vibrantes. Com o ritmo das ondas do mar quebrando na costa, as correntes se movendo sobre recifes, as gotas de chuva na superfície, as marés, e até o som produzido por terremotos e erupções de vulcões submarinos. Aqui não incluímos os sons naturais produzidos pelos seres marinhos. Essa é a voz da natureza em seu estado mais puro.
O que chamamos de poluição sonora oceânica é o resultado da nossa crescente sede de exploração. Ela se manifesta de forma perturbadora através da cravação de estacas (construção de pontes, portos, parques eólicos), detonações subaquáticas, exploração sísmica (exploração de petróleo e gás; mapeamento do fundo do mar), aplicação de sonar ativo (pela marinha, navios comerciais e indústria pesqueira), além do tráfego de barcos turísticos e navios cargueiros.
Um animal marinho pode ser afetado pelo ruído gerado dentro de 100 m, assim como os distúrbios comportamentais podem ser sentidos a 50 km de distância.
Com a nossa crescente ocupação e exploração do oceano, o impacto da poluição sonora sobre os seres marinhos tornou-se um tema de pesquisa importante.
Atualmente, o porquê e como esse ruído afeta cada espécie são perguntas que estamos tentando responder.
Precisamos garantir que a vida marinha consiga voltar a se ouvir.
🎬 CINE-MAR
Documentário - 2016: “Sonic Sea”
O filme explora o papel crucial do som no mar e as mudanças repentinas e dramáticas que a atividade humana está causando no delicado habitat acústico do oceano. Mudanças que ameaçam a capacidade das baleias e de outros animais marinhos de prosperar, funcionar e sobreviver.
Onde assistir: YouTube
PRÓXIMO MERGULHO
Na próxima newsletter, vamos entender como o tráfego comercial está apagando as vozes do fundo do mar. Também vou te levar de Abrolhos à Nova Zelândia para entender a profunda conexão humana com as baleias, e a importância disso em nossas relações com o ambiente marinho.
