As vozes que estamos apagando no fundo do mar

O som debaixo d’água é completamente diferente dele no ar. Corre longas distâncias muito rápido. As baleias podem ouvir a mil milhas de distância. Os ouvidos são a entrada de sua alma. Todas as baleias ouvem e precisam desse sentido para sobreviver.

Nas últimas 5 décadas, a gente vem alterando os sons no mar. O barulho no oceano está duplicando a cada 10 anos. O som de maior impacto é o de navio comercial. Imagina 60 mil deles atravessando o mundo. Uma poluição sonora que preenche o oceano.

O barulho maior não vem do motor, e sim do giro das pás dos* hélices em alta velocidade, que geram bolhas de vapor e estouram continuamente gerando muito barulho, um fenômeno chamado cavitação. Outro potencial ruído vem do casco do navio, que vibra transmitindo o barulho da engrenagem do motor na água.

O estudo do Dr. Christopher Clark e sua equipe, publicado na revista científica Endangered Species Research, revelou que devido à intensa poluição sonora subaquática provocada pelo tráfego de navios, a distância que as baleias-francas-do-atlântico-norte conseguiam ouvir umas às outras despencou de 160 quilômetros para menos de 16 quilômetros. Isso significa que perderam 80% da capacidade de ouvir outras baleias.

Estamos silenciando as baleias.

Precisamos reduzir os ruídos que provocamos para voltar a dar voz as baleias.

*Dos hélices: É a forma masculina, utilizada na náutica (os hélices do navio e barco). Das hélices: É a forma feminina, utilizada na aviação (as hélices do avião).

🎙️VOZES QUE INSPIRAM
❝

“Necessito do mar porque me ensina:

não sei se aprendo música ou consciência

não sei se é onda só ou ser profundo

ou apenas rouca voz ou deslumbrante

suposição de peixes e navios.

O fato é que até quando adormecido

de algum modo magnético circulo

na universidade do marulho.”

– Pablo Neruda
📻 SINTONIZE NO OCEANO

Ouça o impacto da poluição sonora marinha. No primeiro aúdio, vocalizações de baleias jubarte com navio ao fundo no Santuário Marinho Nacional de Stellwagen Bank.

No segundo áudio, vocalizações de baleias jubarte com camarões estalando ao fundo no Parque Nacional da Samoa Americana, sem interferência de ruídos causados por nós.

De Abrolhos a Kaikoura: até onde minha paixão me leva

O som nos oceanos é informação pura. Funciona como um mapa, uma bússola de sobrevivência aos seres que vivem lá.

Para entendermos a importância da conservação acústica, precisamos primeiro distinguir esses sons. A paisagem sonora marinha se divide em duas categorias: sons naturais e ruídos antropogênicos (ou seja, provocados pelas atividades humanas).

Antes de nós humanos ligarmos o primeiro motor, o oceano já era um lugar de sons vibrantes. Com o ritmo das ondas do mar quebrando na costa, as correntes se movendo sobre recifes, as gotas de chuva na superfície, as marés, e até o som produzido por terremotos e erupções de vulcões submarinos. Aqui não incluímos os sons naturais produzidos pelos seres marinhos. Essa é a voz da natureza em seu estado mais puro.

O que chamamos de poluição sonora oceânica é o resultado da nossa crescente sede de exploração. Ela se manifesta de forma perturbadora através da cravação de estacas (construção de pontes, portos, parques eólicos), detonações subaquáticas, exploração sísmica (exploração de petróleo e gás; mapeamento do fundo do mar), aplicação de sonar ativo (pela marinha, navios comerciais e indústria pesqueira), além do tráfego de barcos turísticos e navios cargueiros.

Um animal marinho pode ser afetado pelo ruído gerado dentro de 100 m, assim como os distúrbios comportamentais podem ser sentidos a 50 km de distância. 

Com a nossa crescente ocupação e exploração do oceano, o impacto da poluição sonora sobre os seres marinhos tornou-se um tema de pesquisa importante.

Atualmente, o porquê e como esse ruído afeta cada espécie são perguntas que estamos tentando responder.

Precisamos garantir que a vida marinha consiga voltar a se ouvir.

PRÓXIMO MERGULHO

Na próxima edição da SOWA, vamos desvendar a anatomia auditiva fascinante dos pinguins e entender por que a era industrial colocou navios e baleias no mesmo canal sonoro.